Educando e seguindo o coração


A Maternidade foi apurando meu olhar. De um blog e pesquisas sobre a gestação e o primeiro ano dos bebês, passei a aprofundar meus estudos e escritos sobre educação. Em 2008 fui co-fundadora de uma escola inovadora, com aspiração de fazer uma educação diferente. Em 2010 tornei-me mãe. Fiquei dois anos com meu filho em casa e em 2013 voltei à Direção da escola. Nesse ano a equipe da escola estudou alternativas educacionais, formatos diferenciados e desescolarização. Meu coração bateu descompassado com a desescolarização e meus estudos focaram de forma mais afinada esse tema.

Chegou um momento em que a roda da vida girou e minha função na escola se desfez. Momento propício para colocar em prática o que vinha brilhando meus olhos a mais tempo. Olhando pro meu filho, quando o deixávamos na escola, duas coisas aconteciam: ele chorava e não queria ficar, ou antes mesmo de ficar, dizia que não queria ir. Outra coisa acontecia em nós: olhávamos para ele no pátio da escola e lembrávamos das coisas que podíamos fazer juntos, das exposições na cidade, das experiências que poderíamos estar oferecendo a ele fora da cerca da escola. Naturalmente, ele sentia nosso sentimento e provavelmente chorava porque sentíamos todos que poderíamos ficar juntos, descobrindo o mundo.

Como educadora, me vi num embate interno. De um lado, a escola era aquela que eu havia sonhado, construído com meu coração. De outro, ela seguia sendo uma escola. Como diz Ana Thomaz, nós tentamos reformar as coisas, mas elas continuam sendo essas coisas reformadas. Assim fazemos com "uma escola diferente", mas ela segue sendo uma escola. A escola que construí, não o fiz sozinha (obviamente), partiu do sonho de nosso mestre, juntando os sonhos de muitas pessoas que queriam participar de uma escola diferente. Tem por base a Cultura de Paz, conduzindo as ações da escola. Um lindo projeto!

Ainda assim, ao invés de deter-se no desenvolvimento cognitivo como a maioria das escolas, dá ênfase ao desenvolvimento das boas relações, foco que falta para que o mundo tenha novas perspectivas. Porém, a integridade do ser se dá quando exercitamos o equilíbrio e o encaixe de todas as peças do grande quebra cabeças de que somos constituídos. Se o sistema educacional congelou suas dinâmicas no desenvolvimento do pensar, focar um único outro lado, é reformar o mesmo e continuar com nosso desenvolvimento incompleto.

É claro que é melhor educar pela Cultura de Paz do que pelo stricto cognitivo, mas isso é como passar uma maquiagem para disfarçar uma imperfeição. Porém, eu queria poder exercitar uma educação verdadeiramente integral, que contemplasse o todo de cada um. Sei que é uma tarefa difícil, dada a diversidade de seres no mundo. Por isso, ao sair da escola, continuo achando que a escola que construímos é a melhor da região, não teria coragem de reduzir meu filho ao cognitivo. Mas também não quero reduzir meu filho às paredes de uma escola, à turma da escola ou à visão reduzida de uma única pedagogia.

Não queremos criticar a escola, nem levantar bandeira sobre a desencolarização. Meu marido e eu, estudamos juntos, lemos, conversamos muito e decidimos proporcionar experiências ampliadas a nosso filho. Sabemos que nem todas as famílias podem educar seus filhos "em casa". A escola teve seu início por vias duvidosas (que podemos conversar mais a frente) e hoje serve para várias coisas, mas principalmente "porque precisamos trabalhar e não temos com quem deixar nossos filhos". Além disso, creio que a maior motivação da escola seja dar suporte aos pais que não tenham tido uma educação que sustente a educação dos próprios filhos (por isso é dever do Estado). Ou ainda, ser complementar na educação dos filhos, das famílias que optam por trabalhar o dia todo (ou um turno) e querem deixar as crianças em algum lugar que seja interessante e tenha as mesmas escolhas educacionais. Que bom que o mundo é diverso e que temos opção para qualquer configuração e escolha familiar!

Sei que a primeira coisa que vem à cabeça quando falamos da existência da escola, seja a "socialização" ou a "aquisição de conhecimento", mas se pararmos para pensar profundamente sobre esses tópicos, veremos que a escola (normal) ensina a todos de uma mesma forma, que as crianças que não se enquadram em algum padrão são excluídas e, mais, que se você não responde o que o professor quer, você está errado e é um mau aluno. Será que isso é socialização?

Quando as pessoas me perguntam: "Mas como ficará a socialização de seu filho?", elas querem saber com quem meu filho conviverá, com quem aprenderá as regras sociais para se encaixar na sociedade? Prefiro que ele seja ele mesmo, que aprenda como se relacionar, fazendo parte de uma família que convive com uma diversidade de pessoas, de diferentes idades, pensamentos e funcionamentos. Só assim ele saberá se mover com facilidade em meio a qualquer espaço social e cultural, sendo respeitado e aprendendo a respeitar a diversidade.

Já ouvi que "é na escola que temos conhecimento". Compreendo que essa seja uma repetição do que ouvimos e que, se pararmos para refletir (o que as escolas não têm ensinado), o conhecimento está aí, no mundo, para quem quiser acessá-lo. Ao fazer um bolo, precisamos entender de química, de medidas matemáticas, e muito mais. Quando meu marido constrói um instrumento musical, precisa entender de geometria, de pesos e medidas, etc. O Mundo é uma escola, não tenho dúvida disso! Como explicar a sabedoria de um agricultor que não frequentou a escola? Por que precisamos artificializar o conhecimento, tornando-o uma repetição de conceitos que são esquecidos depois da prova, dentro de quatro paredes?

Meus questionamentos não são uma afronta a Educação, muito pelo contrário, penso que a escola pode sair de dentro de seus muros, fazer a vida ensinar através de experiências, ouvir os questionamentos das crianças e jovens, cheios de vida, que vão perdendo a vontade e curiosidade ao longo da escolarização, porque precisam cumprir tabela e pensar segundo o que o professor apresenta. O mundo é maior do que isso.

Se pudermos pensar como a escola pode levar a vida mais a sério, como podemos incluir o mundo ao redor da escola na vida das crianças, se, através de exemplos, pudermos ajudar os professores a exercitar formas dinâmicas, plurais e reais de aprendizado. Se pudermos oferecer o mundo para que, do encontro com ele, as crianças testem suas hipóteses, criem e construam um mundo mais feliz, penso que essa seria a fun