Liberdade, respeito, valor e as crianças: cuidado para o que andam te contando por aí...

No encontro formativo da equipe da Escola Janela, trouxe essa preocupação: precisamos mostras às crianças o que tem real valor!Explico. Quando as crianças falam na 'roda de partilha' sobre o que fizeram nas férias, no final de semana ou no feriado, sempre tem aqueles que tiveram 'grandes experiências' com viagens, video games, filmes na TV, etc. Não condeno a experiência de ninguém, o que acontece é que diante de tudo o que o dinheiro pode comprar, ficam as crianças que 'não tem nada de interessante para compartilhar', que não querem falar porque na verdade ficaram em casa, talvez fizeram um bolo com a mãe, plantaram algo no quintal, andaram de bicicleta com o pai, contaram piada à mesa ...justamente a tradução do amor. Eu diria que são esses grandes momentos em que a criança foi nutrida emocionalmente, que andou de mãos dadas com a mamãe, que foi incentivada pelo papai, que participou de algo na família porque é importante, que contou uma história à mesa e foi realmente ouvida!

Incentivar as pequenas coisas que preenchem o coração, dar valor aos pequenos encontros, legitimar o que cada um tem de natural, aquilo que se produz com simplicidade, é regar a força do amor, que na verdade sustenta todo o resto, mesmo que as pessoas ainda acreditem que 'chegar lá' com grana, carro e uma TV ultramegapowerfoda seja o caminho a percorrer. Se elas tiverem a semente do amor bem regada, entenderem dos pequenos momentos sagrados de felicidade, felicidade de verdade, daquela que sai de dentro sem nenhum artifício ligado a ela, nessa hora, elas saberão que cada um tem o seu infinito valor, tendo plantado na roça com os pais no final de semana, ou passeado no zoológico com os pais, não importa.

O verdadeiro valor que precisamos regar em nossas 'rodas de conversa' com as crianças, é que cada uma delas é muito importante, é valorizada, com a realidade que a compõe e que não precisa ser como ninguém, nem comprar o que o outro tem, nem querer ser como os outros, nem chegar ao lugar onde vejo os outros, para ser importante ou querer 'levantar a mão' para poder contar o monte-de- coisa-que-tenho-que-você-não-tem. Posso levantar a mão e me sentir importante porque hoje minha mãe brincou comigo de casinha, ou porque meu pai e eu fizemos uma viagem intergalactica com nossa nave espacial invisível ou porque eu consegui colher muitos tomatinhos na horta ou fiz um pão gostoso com a vovó.

Valores que foram se perdendo, e que precisamos urgentemente resgatar como importantes nas crianças, para que elas lembrem-se quando crescerem que o que faz a gente feliz não é algo que compramos ou que está do lado de fora, mas as qualidade que expressamos, os encontros felizes que vivenciamos, o quanto respeitamos e nos sentimos respeitados. Fazer refletir sobre a banalização do que não nos faz bem, do que está machucando as pessoas, do desequilibrio. E entender que a harmonia, o bem estar, a cooperação que está tão esquecida nas esquinas por aí, é que farão nosso mundo diferente e melhor!

Não vamos mais fingir que esse monte de discrepância não nos atinge, que a miséria humana não nos toca, vamos falar o que não está bem, valorizando o que faz o amor crescer. É disso que as crianças precisam de nós: coerência. Vamos parar de criticar as coisas e fazer o que precisa ser feito!! A educação consciente pode mudar o mundo! A partir dela, cada um faz o que precisa ser feito, cada um se responsabiliza por fazer o que é amor e denunciar o que é desrespeito, desleixo, descaso e desarmonia.

Aqui entra também quem se engana dizendo que está educando para ser livre, deixando a criança desamparada, fazendo 'bizarrices' porque ninguém ajudou-as contando sobre como nos integramos ou podemos nos comunicar para sermos entendidos. Crianças vão aprendendo e construindo seus mecanismos e ferramentas internas para lidar com sua liberdade, alimentadas de firmeza amorosa, de orientação consciente, de feedback de quem as ama e alimenta seu repertório afetivo. Aí sim, poderão exercer sua autonomia com a liberdade de quem tem lucidez. Sem isso, as crianças 'livres' de agora estarão aprisionadas em sua porção bicho, correndo atrás do que dá prazer, sem perceber que fazem parte de um todo, que seu movimento afeta aos outros.

Chega de repetir 'verdades' frias, é preciso olhar para o que realmente está acontecendo com nossas relações, com a natureza, com o mundo, com nossos filhos, e realmente dar um basta para o que não nos faz melhor. Agora! Por favor! As crianças estão perdendo isso muito cedo, a favor de gritos, esperneios e desmandos disfarçados de 'ela tem personalidade', e precisam de nosso apoio para não perderem essa parte humana e amorosa que carregam com tanta singeleza, que as inclui, que desperta o que há de melhor em suas personalidades, porque é disso que o mundo em que vivemos hoje precisa: gente humanizada, sensível a si e aos outros, atenta ao seu redor e a seus sentimentos, que sabe o que é ética e sabe lidar com suas emoções, que pode ajudar, que entende que é pelo amor que vamos todos em frente!

Tão simples, está tudo escondido atrás do monte de coisa que as crianças andam reproduzindo em nossas 'rodas de conversa', alimentadas pelo mundo artificial que contruímos para elas, que as faz imediatistas e não ajuda a refletir. Tão simples quanto dar um passeio de mão dada com a mamãe, ouvindo os passarinhos da rua e quanto sentir a firmeza do papai enquanto ajuda a andar de bicicleta sem rodinha, o que aliás, desbanca qualquer jogo novo do Palystation 3.